No Vácuo do Sonho Real

Sonhei que estava vivendo
O sonho que havia sonhado ontem
Deste sonho do sonho sonhado antes
Acordei convencido que os sonhos têm memória
E que são uma vida paralela noutra dimensão
Sonho ou realidade: onde a salvação?
A vacuidade é que desvenda o enigma desta estória?

Ó-linda Ilha Desvirginada

Na pressa de chegar no melhor lugar
(antes que eu morra ou ele acabe)
Sigo como no vácuo de uma ambulância
Que vai abrindo o caminho da emergência
No trânsito congestionado de ganâncias
Na via beira-mar do calçadão da inconsciência

          Mas sigo percebendo a beleza contida na paisagem
          Do oceano com seus arrecifes na Boa Viagem
         Que faço para conhecer o paraíso de Fernando de Noronha
         Que é um reduto da natureza brasileira ilhada
         De cuja exploração a indústria do turismo sexual sonha
         Ver sua orla por espigões arquitetônicos ser estuprada.




NO SINAL AMARELO

Ultrapassou o sinal, peça desculpas
Não hesites em se humilhar
E se ela negar e quiser revide
Roube o perdão dela rápido
Enquanto dói e estiveres arrasado
Vá se esgueirando feito motoboy
Entre os espelhos retrovisores
Dos veículos no sinal fechado
Para ser o primeiro a lhe sorrir
quando ela abrir o verde do seu olhar
Para não deixar o coração dela pestanejar
E te mostrar seus olhos vermelhos de chorar
Por que, senão, a fila andou e você apagou
E terá a licença cassada por excessos acumulados
(Talvez sem direito a curso de reciclagem!)

ECOS DO CAUÊ

Fiquei pastando versos

Por um bom tempo a ruminar

O BOITEMPO que o Drummond

Levou vinte anos pra semear.

O VOO DA LAGOA

Como a pata do pato
Que é boa pra caminhar
(Com grande base pra ficar em pé)
E excelente para nadar
O nosso amor é um fato
(Com maioridade pra se botar fé)
Que é ótimo de se vivenciar
E maravilhoso de se projetar voar
Como dois patinhos na lagoa...
Da vida.

EFEITOS DO VULCÃO CHILENO

Aeroportos fechados, sem teto
Nuvens carregadas de pó bruto
Cinzas espalhadas pelo chão
De várias nações vizinhas
Expelidas no fogaréu do charuto
Fumado pela natureza feita um dragão
Enquanto derramava em lavas vermelhas
O vinho do Castillero del Diablo do vulcão:
Neruda,  qué borrachera en Puyehue!

O OBSERVADOR DA MENTE

(Avidya)
Como uma criança hiperativa
A mente é altista e tímida
E paralisa as suas travessuras
Quando se sente observada
     Na insônia intensa
     Quando a mente dispara
     A pensar disparates
     Quem a manda contar carneirinhos?
             Quem nunca observou
             Seus próprios pensamentos
             (Especialmente os indesejáveis)
             E os espantou de vez
             Fazendo a mente se aquietar?
             Como isso é meditar:
             Quem nunca meditou?
                    Saiba que o observador inercial
                    Que está sempre por trás da mente
                    É a nossa natureza primordial
                    Que sobrevive soterrada
                    Pela avalanche de pensamentos
                    Que a mente produz de forma deliberada
                    Para cegar o seu observador
                    E fazê-lo cair na ignorância
                    De se confundir com o torpor
                    Esquecendo que há a mente observada
                    E esquecendo que é o observador
                    Até ficar como uma alma penada
                    Pelo jogo da mente aprisionado.